Ressaca Não é Fantasia: Por que Treinar Depois do Carnaval Cobra seu Preço.

Treinar de ressaca é uma prática mais comum do que se imagina, especialmente em períodos festivos como o Carnaval, quando noites curtas, álcool e desidratação fazem parte do pacote. No entanto, do ponto de vista fisiológico, o organismo em ressaca está longe de estar pronto para lidar com as exigências de um treino de corrida. O álcool compromete a reposição de líquidos, altera o equilíbrio eletrolítico e sobrecarrega o sistema cardiovascular, criando um cenário desfavorável para o desempenho e para a segurança do atleta.

Um dos principais impactos da ressaca no treinamento está relacionado à desidratação. O efeito diurético do álcool reduz o volume plasmático, o que dificulta o transporte de oxigênio e nutrientes para os músculos em atividade. Como consequência, a frequência cardíaca tende a se elevar mais rapidamente para um mesmo ritmo de corrida, aumentando a percepção de esforço e reduzindo a eficiência metabólica. Em provas ou treinos mais longos, esse fator pode antecipar a fadiga de forma significativa.


Além disso, o consumo excessivo de álcool interfere diretamente na recuperação muscular. Durante a ressaca, há prejuízo na síntese proteica e aumento de processos inflamatórios, o que dificulta a reparação das microlesões geradas pelo treino. Associado a noites de sono fragmentado ou insuficiente, esse quadro compromete a adaptação ao treinamento e eleva o risco de lesões musculares e tendíneas, especialmente quando o corredor insiste em manter cargas elevadas.

Outro ponto relevante é o impacto neuromotor e cognitivo da ressaca. Reflexos mais lentos, redução da coordenação e queda na capacidade de concentração afetam a técnica de corrida e aumentam a probabilidade de erros de movimento. Em ambientes externos, como ruas e parques, esse déficit de atenção também eleva o risco de quedas e acidentes, tornando o treino não apenas improdutivo, mas potencialmente perigoso.

Em períodos como o Carnaval, a melhor estratégia para o corredor é ajustar expectativas e respeitar os sinais do corpo. Optar por descanso, treinos regenerativos ou simplesmente adiar a sessão pode ser mais benéfico do que insistir em correr de ressaca. Afinal, manter a consistência ao longo do ano depende tanto dos treinos bem feitos quanto das escolhas inteligentes fora deles — e, nesse caso, fantasia nenhuma protege dos efeitos fisiológicos da ressaca.