Quem pratica corrida de longa distância sabe que existe um momento em que apenas as pernas deixam de ser protagonistas. Em provas e treinos prolongados, a capacidade de ingerir e tolerar líquidos e carboidratos pode ser tão importante quanto o condicionamento cardiovascular. É nesse contexto que surgiu um conceito cada vez mais estudado no esporte de endurance: o “treinamento do intestino”, estratégia que busca adaptar o sistema gastrointestinal à ingestão de nutrientes durante o exercício. Pesquisas mostram que o trato gastrointestinal possui capacidade de adaptação e pode melhorar sua tolerância a determinados nutrientes quando é exposto a eles de forma planejada.
A ideia é relativamente simples. Em vez de deixar para descobrir no dia da competição se o organismo tolera determinado gel, bebida ou quantidade de carboidrato, o corredor utiliza os próprios treinos para testar sua estratégia nutricional. Essa adaptação pode envolver a ingestão repetida de carboidratos durante sessões de endurance, sempre respeitando a tolerância individual. Uma revisão sistemática encontrou evidências de que protocolos de “gut training” podem reduzir desconfortos gastrointestinais e melhorar a capacidade de lidar com carboidratos durante o exercício.
E por que isso é tão importante? Náusea, sensação de estômago cheio, cólicas e outros sintomas gastrointestinais são relativamente comuns em esportes de endurance e podem comprometer o desempenho. Uma revisão publicada em 2025 destacou que estratégias nutricionais e o treinamento intestinal podem contribuir para diminuir a frequência ou a intensidade desses problemas, embora a resposta varie bastante de uma pessoa para outra. O estudo também reforça que não existe uma fórmula universal para resolver desconfortos gastrointestinais.
Na prática, o princípio mais importante é não experimentar novidades no dia da prova. O treinamento deve servir também como laboratório para descobrir quais alimentos, bebidas e formas de carboidrato são melhor tolerados durante o esforço. Isso inclui observar não apenas o que é consumido, mas também o ritmo do exercício, temperatura, hidratação e o momento em que os alimentos são ingeridos. Estudos com corredores indicam que exposições repetidas a carboidratos durante o exercício podem melhorar a tolerância gastrointestinal ao longo de algumas semanas.
Treinar o intestino, portanto, não significa simplesmente comer mais durante a corrida. É uma estratégia individualizada que precisa acompanhar o nível de treinamento, a duração do exercício e as necessidades de cada corredor. Para quem apresenta sintomas frequentes ou importantes, a melhor opção é buscar orientação de um profissional de saúde ou nutricionista esportivo, em vez de cortar grupos alimentares por conta própria. No endurance, preparar o corpo para a distância significa muito mais do que fortalecer as pernas: significa também ensinar o organismo a receber, absorver e utilizar aquilo de que precisa ao longo do caminho.